domingo, 22 de julho de 2012

Joaquim

    Já faz uns dias que te desejo escrever uma carta, mas eu não sei para quem endereçar, Joaquim. Te vi tão de longe, mal pude notar o tom do teu cabelo castanho. Tens algum sinal de nascença, aquela pinta escura no queixo te destaca na multidão? Me desculpa por não prestar muita atenção, mas eu fiquei atordoada. Que tal um bilhete falando sobre nosso silêncio ensurdecedor? Fiquei desconcertada, menino. Acho que nunca conseguiria falar, tua pele da cor do pecado me fez engolir as palavras. Que cor têm os olhos cor de mel do alguém que me fez perder o tom? 


    Acho que perdi o juízo, Joaquim, mas desde quinta-feira passada eu te procuro. 
    Que absurdo! 
    Teu rosto pode ser qualquer um que eu já vi, qualquer um que eu cruzo todos os dias no sinal às seis, mas eu não consigo decifrar o mistério que envolve teu sorriso tímido no nosso encontro casual. Somos dois estranhos, mas parece que já te conheço tanto. Como se você estivesse à minha espera, mas passo por despercebida porque você ainda não se deu conta da falta que faço à mesa do jantar. Sabe, todo final de tarde em que não te encontro é como se eu te visse partir contra minha vontade, sem nenhum aviso prévio; é como se você batesse a porta sem dizer adeus. 


    Joaquim, embrulha teu sorriso e me envia no seguinte endereço: Rua das Flores, número 1; na casa que é colada à tua.


(Juliana Thuinny)

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