– Pedro... acorda. Pedro!
– Julia!? O quê? O que foi?
– Pedro, talvez eu não passe de uma farsa.
– Farsa? Como assim? Por que isso, Julia?
– Porque é isso. E fim de papo. Sou uma farsa.
– Eu não consigo entender o que te leva a ser uma farsa. Teve mais um pesadelo, baby?
– Não. Nada de pesadelos, querido. Será que você não percebe?
– Não, eu não percebo. Nem sei aonde você quer chegar.
– Eu reclamo da pressa das pessoas, mas nunca saio de casa sem meu relógio de pulso...
– Mas aí, ser uma farsa já é outra coisa, não? Não está sendo muito dura consigo mesma?
– Não mesmo.
– E o tempo que você dedica a cuidar dos outros não conta, não?
– Não, Pedro, não conta. Eis aí uma das minhas obrigações.
– Mas deveria contar, por que não faz sentido algum essa história de farsa.
– Farsa. Farsa. Farsa! Sou uma farsa! Eu escrevo poesia como se isso fosse curar o mundo de suas mazelas, mas não, querido. Porque eu mal consigo me curar dos meus próprios males e medos. Eu não consigo me livrar da dor latente em meu peito. Eu não consigo escrever sobre esses dias difíceis. Dissimulada. Talvez eu seja uma farsa e dissimulada.
– Olha os absurdos que você tem falado, Julia.
– Absurdo é pensar que eu posso mudar alguma coisa quando mal consigo acolher minhas dores mais profundas.
– Absurdo é você pensar que não pode.
– Cala a boca, Pedro! Não tenta me confundir só pra me fazer sentir melhor.
– É verdade, Julia. Talvez você seja mesma uma farsa, uma dissimulada; e tenha me enganado esse tempo todo. Porque o que vejo, agora, não se parece em nada com a Julia de 2 anos atrás. E me deixa em paz. Eu quero dormir.
O que se pode ouvir agora é o silêncio mastigando os gritos de Julia, que queria confrontar Pedro. Mas sacou que ele tinha toda razão. Não havia mais abajur acesso. Perguntas. Nem "baby" ou "querido". Só Julia, Pedro e o silêncio que separava os dois. E o silêncio dizia muita coisa.
(Juliana Thuinny)
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