segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pesadelo

    No apartamento chinfrim, de amarelo indistinguível, enquanto a cidade dormia, e tudo era silêncio junto às luzes já apagadas; um abajur aceso chama a atenção. Era Julia que não conseguia dormir, depois de muito rolar na cama.

    – Pedro... acorda. Pedro!

    – Julia!? O quê? O que foi?

    – Pedro, talvez eu não passe de uma farsa. 

    – Farsa? Como assim? Por que isso, Julia?

    – Porque é isso. E fim de papo. Sou uma farsa.

    – Eu não consigo entender o que te leva a ser uma farsa. Teve mais um pesadelo, baby?

    – Não. Nada de pesadelos, querido. Será que você não percebe?

    – Não, eu não percebo. Nem sei aonde você quer chegar.


    – Eu reclamo da pressa das pessoas, mas nunca saio de casa sem meu relógio de pulso...

    – Mas aí, ser uma farsa já é outra coisa, não? Não está sendo muito dura consigo mesma?

    – Não mesmo.

    – E o tempo que você dedica a cuidar dos outros não conta, não?

    – Não, Pedro, não conta. Eis aí uma das minhas obrigações.

    – Mas deveria contar, por que não faz sentido algum essa história de farsa.

    – Farsa. Farsa. Farsa! Sou uma farsa! Eu escrevo poesia como se isso fosse curar o mundo de suas mazelas, mas não, querido. Porque eu mal consigo me curar dos meus próprios males e medos. Eu não consigo me livrar da dor latente em meu peito. Eu não consigo escrever sobre esses dias difíceis. Dissimulada. Talvez eu seja uma farsa e dissimulada.

    – Olha os absurdos que você tem falado, Julia.

    – Absurdo é pensar que eu posso mudar alguma coisa quando mal consigo acolher minhas dores mais profundas.

    – Absurdo é você pensar que não pode.

    – Cala a boca, Pedro! Não tenta me confundir só pra me fazer sentir melhor.

    – É verdade, Julia. Talvez você seja mesma uma farsa, uma dissimulada; e tenha me enganado esse tempo todo. Porque o que vejo, agora, não se parece em nada com a Julia de 2 anos atrás. E me deixa em paz. Eu quero dormir.

    O que se pode ouvir agora é o silêncio mastigando os gritos de Julia, que queria confrontar Pedro. Mas sacou que ele tinha toda razão. Não havia mais abajur acesso. Perguntas. Nem "baby" ou "querido". Só Julia, Pedro e o silêncio que separava os dois. E o silêncio dizia muita coisa.

(Juliana Thuinny)

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