quinta-feira, 28 de junho de 2012

"Idelogia"

    Sentados numa mesa de bar, dois caipiras estão a conversar, quando, do nada, um deles decide falar sobre ideologia.


    – Óia, cumpadi, eu nunca que entendi bem do que se tratava idelogia. A primeira vez que ouvi foi numa radiola véia que Joaquina trouxe da cidade grande. Êta menina boa, essa minha fia, viu! Pensa numa criartura hurmide! Nada a ver com a oreia da mãe dela! Pois bem, um tá de moço, por nome de Cázuza, cantava: "Idelogia, eu quero uma pa vivêêê!" Ói, que eu nunca que fui chegado com essas coisa de cidade grande, não. Musica boa, mas boa mezz, é moda de viola: Tonico e Tinoco, Zé Carrêro e Carrêrinho, Renato Texêra! Mas eu gostei desse danado!... 

     – Ah, cumpadi, que baita palavrão! Mas o que quê dizê ide... ido... 

     – Idelogia, homi! 

     – Sim, esse bicho mezzz!

     – Ora, essa, Ciço! Mas eu tumbém não sei. 

     – Cuma? E pru mode que tu tá falando disso, homi?

     – Ara, Ciço! Não seja abestaiado, não, homi! Eu só tô te falano de idelogia pa vê se tu aprende arguma coisa, ara!   

     – Óia, Zé, essa é um palavrão difíci demais da conta! Mas tu bem que podia me arruma uma, óia.  

     – Uma o quê, homi?

     – Uma ide... ido... Uma desse trem desse tá de Cázuza.

     – Ah, homi, descuipa. Mas eu não posso te arruma uma, não.

     – Pru mode de que não, Zé?

     – Aprumode que desna que eu ouvi a musica que eu tô procurando uma.  

(Juliana Thuinny)

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