E eu estava.
[…]
Eu sempre tive os pés no chão, não fazia o tipo sonhador e pra tudo tinha que haver uma explicação; até para o meu comportamento estranho quando estava com ela. Eu respeitava aquela garota, ela não era só uma foda boa e umas histórias pra contar. Ela tinha um quê diferente. Seus olhos de cachaça, pele de veludo e boca cor-de-sangue mexiam com meus extintos, claro; mas mexiam também com algo que nunca havia sentido antes. Usava o cabelo solto que, com o movimento do vento, me embebedava junto aos seus olhos. Me contava mistérios de Júpiter e falava dos anéis de Saturno, eu sempre prestava atenção. Inventava histórias, que nunca terminava de contar. Eu sempre dormia entre o meio e o fim, talvez por querer ver seus lábios se mexendo só pra mim mais uma vez. E era o que sempre acontecia.
Nas noites de sexta, chorava feito criança. Eu nunca entendia o porquê, ela nunca me dizia. Fugia das minhas perguntas, nem mesmo as minhas mãos salientes a convenciam. Mudava de assunto, me pedia pra contar umas histórias do meu tempo de moleque, quando ia acampar. Eu a chamava pra fora de casa e falava sobre as constelações. Ela sorria e beijava meu peito.
No fim da noite, sempre me fazia dançar com ela em cima do tapete. Colocava Johnny Cash na nossa vitrola. Eu a pegava pela sua cintura fina, ela mexia o corpo e, junto dele, mexia comigo. Sentíamos a vida passar de forma suave. Sem nos arranharmos nas horas, no semáforo; sem machucados do tempo.
(Juliana Thuinny)
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